Há uma nova droga na praça. Depois do ecstasy, chegou a vez do ice (gelo, em inglês). É o aditivo dos internautas adolescentes e aficionados por videogame — aquela turma capaz de passar horas e horas de olhos vidrados na tela do computador, surfando ou lutando contra exércitos de alienígenas na rede. Vendido sob a forma de pedras de cristais transparentes, o ice pode ser dissolvido em bebidas, fumado e até mesmo injetado na veia. Vinte minutos e... o coração dispara. A pressão arterial sobe. As pupilas dilatam. O cérebro é inundado por substâncias relacionadas à sensação de bem-estar. Tem-se a impressão de que o corpo é um poço de energia. O raciocínio parece mais rápido. Os reflexos motores, mais aguçados. A luz vinda do monitor incrementa a dança cerebral. Cansaço, o usuário não sente nenhum. Nem depois de doze horas ininterruptas na frente da máquina.
Como tudo relacionado ao consumo desse tipo de substância, a viagem proporcionada pela “droga virtual” é uma aventura perigosa. Pode levar a convulsões e até à morte por parada cardíaca. As autoridades mal a conhecem. No último verão, tirou o sono da polícia européia. Agora, chegou ao Brasil. Alguns médicos, especialistas na recuperação de dependentes químicos, já ouviram relatos de pacientes que experimentaram as pedras. Uma equipe de investigadores paulistas está infiltrada nos pontos mais prováveis de circulação de ice — as lojas de videogame e os salões de fliperama.
Sob encomenda — As pedras transparentes não preocupam apenas por significar a entrada no país de mais um entorpecente. Elas revelam também a que ponto chegaram a ousadia e a sofisticação dos narcotraficantes. Eles se especializam, cada vez mais, em fornecer drogas sob encomenda, para atender a determinados segmentos do mercado consumidor. Assim como o ecstasy se destinava aos freqüentadores de casas noturnas, o ice visa a um público bem definido, os internautas e jogadores de videogame. É diferente do que ocorre, por exemplo, com a maconha ou a cocaína, drogas que, embora no passado tenham sido associadas a tribos específicas (como a dos hippies e a dos yuppies), hoje são consumidas por diferentes grupos da população. “Essa é a nova estratégia dos traficantes”, diz Walter Maierovitch, ex-secretário nacional antidrogas e presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone, centro de estudos sobre o crime organizado internacional. “Eles querem condicionar o consumo de entorpecentes a determinadas atividades.”
O ice é uma versão mais potente das antigas anfetaminas, classe de drogas estimulantes do sistema nervoso central. Utilizadas desde a década de 30 para o tratamento da narcolepsia (distúrbio caracterizado pelo excesso de sono), da hiperatividade infantil e da obesidade, as anfetaminas chegaram ao mercado clandestino nos anos 60. No exterior, ganharam o nome de speed. No Brasil, bolinha ou rebite. Agora reaparecem mais concentradas — por isso têm a forma de cristais. “O ice é uma espécie de crack sintético e pode ser tão devastador quanto ele”, alerta o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo. O crack é uma versão barata da pasta de cocaína, vendida para as camadas mais pobres da população. Produzido na China, na Tailândia e nas Filipinas, o ice chega à Europa ocidental depois de atravessar a Rússia. No Brasil, entra via Paraguai. O preço baixo, cerca de 2 reais a pedrinha, é outra fonte de grande preocupação. As autoridades brasileiras temem que daqui a pouco (e com bastante facilidade) a substância deixe de ser droga restrita aos internautas de classe média e ganhe as ruas.
Autores: Cristina Poles e Ricardo Galhardo
Fonte: revista veja/2001
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário